sexta-feira, 30 de setembro de 2011

APONTAMENTOS DE RECORDAÇÃO

Certo dia  os rapazes, apercebendo-se das injustiças que se estavam a praticar com esta gente, combinaram convidar as raparigas a acompanharem os rapazes para o portão da quinta junto do chafariz. Foi o acordar de consciências. Quando apareceu o patrão de caçadeira às costas a intimar os rapazes a sair e a avisar as raparigas que deviam regressar ao quartel, que vimos as raparigas acompanhar os namorados até ao portão, onde permaneceram até cerca da meia-noite.Mas esta acção não ficou por aqui.No dia seguinte, um domingo, foi decidido que não iriam trabalhar. Assim aconteceu não só com as que tinham namorado, mas também com todas as outras trabalhadoras.
Foi um dia que ficou na memória de todos, pois um grupo de camponesas acompanhadas pelos seus namorados e familiares foram passear até à Feira Popular que então se fazia junto a São Sebastião da Pedreira, no espaço que mais tarde viria a ser construída a sede da Fundação Calouste Gulbenkian e seus jardins. Foi neste dia que a RTP fez a primeira transmissão de televisão.
A partir deste dia não se trabalhou mais ao domingo nesta quinta.É também o início da saída de algumas trabalhadoras para outras quintas e até para fábricas. Foi o princípio do fim do trabalho escravo que se praticava nas quintas dos arredores de Lisboa. Trabalho de sol a sol e por vezes até pela noite adiante para arrumar os produtos das hortas nas galeras ou camionetas para de madrugada seguirem para a Praça da Ribeira.
Não havia horas extraordinárias e quando chovia, não havia paragem nas tarefas do campo e quando se parava, o tempo era descontado no salário da semana. Não havia direito à saúde. Se alguma trabalhadora adoecia de maneira a não poder trabalhar, ficava retida no quartel mas sem receber o salário.Não havia segurança social. Havia apenas uma caixa de primeiros socorros para qualquer pequeno acidente. Era assim o trabalho no campo das quintas dos arredores de Lisboa em meados do século XX.

2 comentários:

  1. Aguardo com espectativa os comentários a este pedaço de história das quintas dos arredores de Lisboa nos fins do século XX !!!

    ResponderEliminar